O roteiro de Mangold e Jay Cocks é inteligente ao não romantizar a pobreza ou o talento bruto. A primeira metade da produção mostra a lógica de um jovem obcecado pelo sucesso. Dylan não é apenas um poeta ingênuo; é um estrategista. Ele estuda o cenário folk de Greenwich Village, dorme no sofá de amigos (como a namorada Sylvie Russo, interpretada por Elle Fanning) e literalmente "suga" o conhecimento de músicos como Pete Seeger (um caloroso Edward Norton) e Joan Baez (a magnética Monica Barbaro).
A Complete Unknown Direção: James Mangold Elenco: Timothée Chalamet, Edward Norton, Elle Fanning, Monica Barbaro Em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.
O longa não tenta abraçar toda a vida de Dylan, focando em um período específico e transformador: a sua chegada a no início dos anos 60.
Em , não assistimos ao Bob Dylan septuagenário e sábio. Somos transportados para o fervor cultural do início dos anos 1960, quando um jovem de 19 anos, com um violão e uma gaita no pescoço, desembarcou em Nova York vindo da gelada Minnesota. O filme, adaptado do livro Dylan Goes Electric! de Elijah Wald, foca em um período crucial: a meteórica ascensão do artista folk até o momento do "grande choque" em 1965, quando ele plugou sua guitarra no Newport Folk Festival e foi vaiado por aqueles que antes o chamavam de "profeta". Um completo desconhecido
Na vastidão das nossas interações sociais, navegamos constantemente entre o familiar e o estranho. A família, os amigos próximos e os colegas de trabalho compõem o nosso "mundo conhecido", um lugar de relativa segurança e previsibilidade. No entanto, basta atravessar uma rua, entrar num ônibus ou abrir uma rede social para nos depararmos com a figura enigmática de "um completo desconhecido".
O filme argumenta que Dylan nunca foi "sobre" Dylan. Ele era um espelho. Na cena inicial, quando o personagem (interpretado com uma transformação impressionante por Timothée Chalamet) conhece seu ídolo, Woody Guthrie, percebemos que ele é uma esponja de referências, uma colcha de retalhos de influências. Ele é "completo" em sua dedicação à arte, mas "desconhecido" em sua vida privada.
James Mangold já provou seu talento em biografias musicais com Johnny & June (Walk the Line). Em "Um Completo Desconhecido", ele conta com um elenco de peso: O roteiro de Mangold e Jay Cocks é
Evolutivamente, o ser humano é programado para conhecer o seu "grupo". Durante milênios, a sobrevivência dependia da coesão da tribo. Quem estava dentro do círculo era aliado; quem estava fora era uma potencial ameaça. Assim, a reação imediata diante de "um completo desconhecido" é, muitas vezes, a vigilância.
Chalamet captura a cadência de fala evasiva de Dylan, o sotaque que ele mesmo inventou, a postura encolhida que era, ao mesmo tempo, defensiva e agressiva. Mas o ator vai além. Ele mostra o cansaço da fama, a crueldade silenciosa com que Dylan se afastava de amantes e amigos, e a solidão fria de um apartamento vazio em meio ao sucesso estrondoso.
O clímax dessa primeira parte é a gravação do álbum The Freewheelin' Bob Dylan . As cenas são efervescentes. Sentimos o cheiro de cerveja barata e o fumo dos cigarros. Chalamet canta e toca ao vivo (após dois anos de treinamento intensivo), e a verossimilhança é tão grande que pequenos detalhes — a forma como ele enrola as palavras em "Don't Think Twice, It's All Right" — nos convencem de que testemunhamos um milagre. Ele estuda o cenário folk de Greenwich Village,
Ele ainda é, para nossa sorte e frustração, .
Para o personagem, ter se tornado um grande conhecido era uma prisão. Para ser fiel à sua própria evolução artística, ele precisava se tornar, novamente, para seus fãs. A cena em que Chalamet esmaga os pedais de efeito e grita "Play it fucking loud!" é um dos momentos mais catárticos do cinema musical desde Bohemian Rhapsody .
Mangold conseguiu o impossível: fez um filme que explica muito sobre o artista, mas que, paradoxalmente, restaura o véu do mistério. Ao sair do cinema, você saberá mais sobre a New York dos anos 60, sobre a política do folk e sobre o preço da genialidade. Mas sobre Bob Dylan? Ele continua lá, na penumbra do palco, com os óculos escuros e um sorriso irônico.
Um jovem de 19 anos vindo de Minnesota com apenas alguns dólares e uma gaita.